Orlando Owoh – Ire Loni Medley

Djuena Tikuna – Saudade da Aldeia

O que eu vejo e o que me olha?

Em nossa pesquisa, conversamos com o artista  Ìdòwù Akínrúlí que, ao nos apresentar diversos músicos, comentou que Orlando Owoh embalava suas manhãs na Nigéria durante a infância, o identificando enquanto um músico tradicional de seu povo Iorubá. Ele as situa em um tempo onde as canções eram compridas e feitas para serem ouvidas por longos períodos de tempo, com diferentes intencionalidades, sem a exigência do mercado por músicas curtas e de fácil consumo. Sua vivência pessoal, assim como a longa duração das canções e as histórias contadas pelas letras são os principais pontos para seu posicionamento. 

O highlife, tocado por Owoh, é um ritmo africano que teve o nome cunhado em 1920, mas que já existia desde o final do século XIX, principalmente em países como Libéria, Serra Leoa, Gana e Nigéria. Ele é o imbricamento de ritmos africanos e ocidentais – bem como outros encontros musicais também mundialmente conhecidos como jazz, blues, samba, etc -, contudo, como surge nas Áfricas, mantém um forte vínculo com diversos países. Deriva de ritmos como o palm wine, comumente descrito enquanto um ritmo tradicional criado na África Ocidental na intersecção entre instrumentos locais e de marinheiros estrangeiros. 

Tanto o palm wine quanto o highlife são, ao mesmo tempo, vistos enquanto tradicionais e derivados do tradicional. O highlife, quando surgiu em 1920, era visto pelos seus iniciantes como não tradicional, mas que atualmente essas mesmas produções da década de 1920 são consideradas tradicionais para nigerianos em nosso contemporâneo. O que tudo isso nos mostra é como o dito tradicional (não apenas em relação à música) é mutável, heterogêneo e diverso e ressignifica-se constantemente de acordo com o tempo histórico e geográfico. 

Djuena Tikuna, indígena da etnia Tikuna, cantora amazonense dona de uma voz doce e olhar intenso, também carrega a chave para nos ajudar a compreender o modo como o tradicional se reinventa constantemente. Suas canções, para um ouvido desconhecido, pode “soar tradicional”, pois é fortemente influenciada por ritmos indígenas comumente enquadrados dessa forma, porém, em uma entrevista, comenta que, em conjunto com Diego Janatã (filho do povo Guajajara, percussionista e estudante dos instrumentos indígenas), viaja pelo Brasil visitando diferentes povos, conversando com pajés e líderes das comunidades, fazendo contato e parcerias musicais a fim de incorporar vários ritmos e instrumentos indígenas em sua sonoridade.

Suas canções são múltiplas e dialogam com a vivência de vários povos indígenas. Ao divulgar elementos de diferentes culturas indígenas e trabalhar com a encruzilhada de timbres e sonoridades, questiona a imutabilidade de uma tradição indígena congelada no tempo. Em suas palavras, “[…] a música para nós, povos indígenas, é nativa tanto quanto o mais velho ancião. […] celebramos a vida através do canto”. Tanto Diego quanto Djuena pontuam a musicalidade enquanto ponto de encontro de sua ancestralidade.

Como para Akín quanto para Djuena e Orlando a música é mais do que entretenimento, é parte integrante do cotidiano, servindo a variados propósitos. O que é possível aprender com esses artistas? Quais deslocamentos essas músicas provocam? Quais  ideias novas e modos de ação no mundo elas instigam? 

O que eu vejo e o que me olha? 

Entre as duas coisas estamos nós.

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¹Muitas dessas histórias fazem analogias com situações da vida real, apresentando perspectivas para reflexão e melhor compreensão do mundo.

²O Highlife possui três diferentes vertentes: Palm-Wine Highlife; Adaha Highlife e Dance-band Highlife, provenientes de diferentes regiões de África.

³O nome ‘vinho de palma’ vem do ato comum entre marinheiros e locais de se beber o suco fermentado da palmeira nos bares do cais.

Pontuamos aqui que a escolha por duas músicas sem tradução é consciente, pois, dessa forma, acreditamos incentivar o exercício do sentir sobre impressões que chegam até nós para além das letras.


PARA SABER MAIS:

Site da Djuena Tikuna

Youtube Djuena Tikuna

Spotify Orlando Owoh

História do ritmo Palm Wine

O dia em que a índigena Djuena Tikuna fez do palco sua aldeia

“O canto tikuna é muito espiritual, você escreve com a alma” – El País

Sobre o povo Tikuna e música

Programa Sustentahabilidade com Djuena Tikuna e Diego Janatã


REFERÊNCIAS:

COELHO, Luís. Música Indígena no Mercado: Sobre Demandas, Mensagens e Ruídos no (Des)Encontro Intermusical. Repositório Digital Institucional UFPR, v. 5, n.1, p 151-166, 2004. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/campos/article/view/1640. Acesso em 16 de junho de 2020.

COLLINS, John. The early history of West African highlife music. Cambridge University Press, v. 8, n. 3, pp. 221-230. 1989. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/popular-music/article/early-history-of-west-african-highlife-music/7F7BCD547E98493360371B805687D34D. Acesso em 16 de junho de 2020. 

ROCHA, Enilce Albergaria. A noção de Relação em Édouard Glissant. IPOTESI, Revista de Estudos Literários, v.6. 2002. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/ipotesi/article/view/19272. Acesso em 16 de junho de 2020.

VÁZQUEZ, R.; BARRERA CONTRERAS, M. Aiesthesis decolonial y los tiempos relacionales. Entrevista a Rolando Vázquez. Calle 14 revista de investigación en el campo del arte, v. 11, n. 18, p. 76-93, 4 oct. 2016. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=5687728. Acesso em 16 de junho de 2020. 

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