Mercedes Sosa – “Cuando tenga la tierra” – Legendado

Fela Kuti – Zombie

Mercedes Sosa e Fela Kuti foram influentes vozes que embalaram revoltas e alimentaram efervescências sociais com suas próprias entonações, manifestando as possibilidades de resistência em diferentes contextos ditatoriais. Mercedes, conhecida também como La Negra devido a sua origem Diaguita¹, participa da renovação poético-musical em 1960 marcada pelo movimento do El Nuevo Cancionero na Argentina.

O folclore argentino surge da multiplicidade de culturas indígenas originárias e passa por várias remodelações ao longo da história². Mercedes se encontra no chamado “boom do folclore” ocorrido após 1950 e impulsionado pelo El Nuevo Cancioneiro que se definiu como uma busca artística e social, questionando até mesmo o próprio conceito de “folclore” e o que ele silencia. Articulado a uma preocupação com as raízes populares, possuía a intenção de inspirar outras sensibilidades nos públicos urbanos, compreendendo o folclore como cultura viva e em movimento e, portanto, um importante canal de denúncia para o cidadão argentino.

As canções de Mercedes têm por princípio a valorização e o estabelecimento de diálogo com os caminhos de mulheres, trabalhadores rurais e indígenas, trazendo para o primeiro plano suas realidades, lutas, sonhos, esperanças e dores. “Quando tiver a terra, eu te juro, semente, que a vida será um doce cacho, e, no mar das uvas, nosso vinho! […] Camponês! Quando eu tiver a terra […] / Detrás de todo o esquecimento, secarei com as minhas lágrimas todo o horror da lástima! E, por fim, ver-te-ei, camponês!“. A terra, nessa canção, simboliza todo um conjunto de concepções sobre a vida e a comunidade, assim como diferentes relações com a terra e com a natureza que foram e continuam sendo violentadas ou silenciadas pela colonialidade. 

Encontramos semelhante potência de oposição em Fela Kuti³. Proeminente músico, multi-instrumentista, compositor, criador do revolucionário gênero musical Afrobeat e ativista político nigeriano, Fela fazia críticas ao governo e à política de assimilação da cultura ocidental imposta aos povos africanos. Lançou grandes hinos de protesto como Zombie que, ao fazer referência aos militares e à obediência cega, estimulou a população a antagonizá-los, se tornando uma canção popular de protestos que ressoou pelas ruas: “Zumbi, não vai, a menos que você diga para ir (zumbi) /Zumbi não vai parar, a menos que você diga para parar (zumbi) /Vá e mate! (Joro, jaro, joro) /Vá e morra! (Joro, jaro, joro) /Vá e esmague! (Joro, jaro, joro)

O ritmo Afrobeat, em suas canções, era marcado por uma base de tambores, como o Xequerê e Conga, em conjunto com instrumentos melódicos como a guitarra, violão, sax e o baixo. Nas letras, eram inseridas falas tradicionais em Yorùbá e, como nos contou o artista Yorùbá Ìdòwù Akínrúlí, “os tambores falam, cada toque feito é uma fala e cada situação tem seus toques”, portanto, além dos significados expostos diretamente nas letras, há um universo de sentidos para cada um dos sons escolhidos. 

Fela, ao misturar em sua música elementos Yorùbá e ocidentais, levantava o questionamento sobre a dita “essência africana”4 e reafirmava a importância da valorização das culturas africanas aqui, especificamente, a cultura Yorùbá. 

Com esses artistas podemos notar que a resistência, partindo de diversos espaços geopolíticos, carrega em si um universo cultural, alicerçado na espiritualidade, nos valores, percepções e concepções de mundo específicas. Mercedes, na música selecionada, canta sobre o direito e o desejo à terra, fazendo coro à luta anticolonial e anticapitalista indígena e camponesa. Fela também é até hoje uma grande referência que carrega a força da denúncia e do combate contra a colonialidade, por meio de suas vivências e referências culturais. As canções são afirmações de identidades políticas em perspectivas diversas que refletem o emaranhado de relações sociais, seus tempos, lugares e deslocamentos.  

PARA SABER MAIS: as relações entre música e tradição, acesse este texto! 

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¹ Grupos indígenas sul-americanos nativos do Norte Chico do Chile e do Noroeste argentino. Para saber mais acesse: <http://bibliotecadigital.ciren.cl/handle/123456789/29199>

² Por exemplo, um importante fator para a remodelação do folclore argentino nesse período foi a grande migração interna (1930-1980), o deslocamento em massa do campo para as cidades, processo desencadeado após a crise mundial de 1929 e o fim da imigração europeia no país. 

³Nome completo Fela Anikulapo Ransome Kuti, filho de Funmilayo Ransome-Kuti, importante ativista anticolonial nigeriana que lutou por direitos iguais para as mulheres e pela independência da Nigéria, sendo muitas vezes chamada de “a mãe de África”. Para saber mais acesse: <https://info.umkc.edu/womenc/2013/03/27/womens-history-month-profile-funmilayo-ransome-kuti/>

4  Criticando principalmente o governo que se apoiava em uma ideia de essência africana ao mesmo tempo que procurava viver de forma ocidentalizada (AGUAS, 2018, p. 115). Em outros álbuns como Sorrow, Tears and Blood, critica abertamente a mentalidade colonial, associando-a a um estado mental de escravidão. Reflexão presente também na produção de teóricos africanos, como Frantz Fanon em sua crítica da relação colonizador-colonizado no livro Condenados da Terra, onde aponta a abrangência para além de questões materiais, atingindo a construção da subjetividade. Diversas outras reflexões que abordam a questão colonial também estão presentes na obra de Aimé Césaire, Discurso sobre o Colonialismo.


PARA SABER MAIS:

Spotify Fela Kuti

Spotify Mercedes Sosa

Youtube Ìdòwú Akínrúlí


REFERÊNCIAS

AGUAS, Carlos Andrés Rojas. Música de La Resistencia: Fela Kuti, el griot nigeriano. CONTRA| RELATOS desde el Sur, v. 10, n. 11, p. 107-122, 2014. Discponível em: <https://revistas.unc.edu.ar/index.php/contra-relatos/article/view/20521>. Acesso em: 4 ago. 2020.

BRACELI, Rodolfo. Mercedes Sosa: La Negra. 1a. ed. Sudamericana, jan. 2005.

GIMÉNEZ, Andrea Beatriz Wozniak. Renovação poético-musical engajamento e performance artística em Mercedes Sosa e Elis Regina, 2016. Disponível em:  <http://hdl.handle.net/11449/150706>. Acesso em: 27 jul. 2020

GIMÉNEZ, Andrea Beatriz Wozniak. Canto engajado em tempos autoritários: Mercedes Sosa e Elis Regina. 2019. Disponível em: <https://bit.ly/3a7V4D7>. Acesso em: 4 ago. 2020.

MEU amigo Fela. Direção Joel Zito Araujo. Rio de Janeiro: O2 Play, 2019. 1 DVD (94 min).
Historia de La Negra. Revista Los Andes, Mendonza, República Argentina. 29a. ed. abr. 2003. Disponível em: <https://bit.ly/31l83NG>. Acesso em: 27 jul. 2020.

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