ACESSE O LIVRO: DIÁLOGOS SENSÍVEIS: PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE SABERES DIVERSOS

[…] porque não é verdade que a obra do homem está acabada
que não temos nada a fazer no mundo
que parasitamos o mundo
que basta que marquemos o nosso passo pelo passo do mundo
ao contrário a obra do homem apenas começou
e falta ao homem conquistar toda interdição imobilizada nos recantos do seu fervor
e nenhuma raça possui o monopólio da beleza, da inteligência, da força
e há lugar para todos no encontro marcado da conquista […] (CÉSAIRE, 2012, p.81).

A epígrafe acima, da obra Diário de Um Retorno ao País Natal, do intelectual, poeta, dramaturgo, ensaísta e político da negritude, o martinicano Aimé Césaire, nos serve de inspiração para pensarmos sobre nossos posicionamentos nas ações acadêmicas e políticas cotidianas. Se o espaço que ocupamos é marcado pela colonialidade, e todos os seus derivados, que tipo de ações podemos empreender? O que podemos propor e construir? Estas, e outras questões, fundamentaram a realização do I Encontro Pós-colonial e Decolonial “Diálogos Sensíveis: produção e circulação de saberes diversos”, ocorrido entre os dias 23 e 25 de outubro de 2019 na FAED-UDESC, nos afetando profundamente na construção de um conhecimento científico coletivo, situado e suleado. Algumas potentes vozes continuarão a ecoar através deste livro que publiciza as comunicações apresentadas nos Simpósios Temáticos ocorridos no evento, realizado com patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC) – Edital de Chamada Pública n. 01/2019 Proeventos 2019/2020, fase 2 – e da UDESC a partir da Direção de Extensão da FAED, com recursos do Edital PAEX nº 02/2017, instituições às quais agradecemos. 

O I EPD foi resultado de um sonho coletivo dos/as integrantes do Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais (AYA-UDESC) e compartilhado com grupos e pessoas envolvidas na luta antirracista , visibilizando temáticas pertinentes à mesma e ao contexto histórico no qual estamos inseridos/as, resultante de séculos de práticas coloniais que marcaram e marcam a história do Brasil, da América Latina e de África. Os eixos do evento foram alicerçados em um posicionamento calcado nos estudos pós-coloniais e decoloniais em diálogo com conhecimentos que há milênios são base das vidas de diversas populações que sofrem violências cotidianas e combatem a homogeneidade pretendida pela modernidade/colonialidade. O I EPD foi planejado através de reuniões abertas, nas quais foi gestada de maneira colaborativa a proposta de um evento que se transformou de fato em um vigoroso espaço de troca, com transformadoras falas, artes e debates que impulsionaram a decolonialidade como prática. O evento trouxe enquanto princípio a interseccionalidade, presente não apenas como temática, mas na presença de pessoas com experiências singulares e que atuam em diferentes instituições educacionais e movimentos sociais na luta anti-racista, anti-patriarcal e anti-capitalista. Pensamos, portanto, a interseccionalidade perpassando questões como classe, gênero, raça/etnia/origem, geração e área/local de atuação. Temas latentes como terra/território, trabalho e educação se articularam com subjetividades, corpo e buen vivir. Nesta perspectiva, o evento teve sua intencionalidade central expressa em seu tema geral “Diálogos sensíveis: produção e circulação de saberes diversos”, que buscou evidenciar conhecimentos que fazem parte da reexistência de pessoas indígenas, africanas, negras, LGBT+. A diversidade estava em pauta e no palco, porque somos um país e mundo plural e nisto consiste nossa riqueza. 

Nossa pergunta suleadora foi: Como, a partir de lugares diversos e saberes plurais, construímos diálogos e projetos alternativos? A partir dela estruturou-se os seguintes eixos, cujos temas foram discutidos em rodas de conversas entre seis pessoas num espaço circular que instigava o diálogo: “Educação: Saberes e Interseccionalidade”, “Mundos do Trabalho e Redes de Sociabilidades”, “Territorialidades e Mobilidades”, “Performances Decoloniais”, “Narrativas históricas” e “Descolonizar a Universidade”. Destes, dois foram transformados em Simpósios Temáticos , cujos trabalhos agora apresentam-se aqui reunidos neste livro digital que representa pesquisadores de diversos lugares do Brasil, América Latina e África. Foram simpósios que impactaram os presentes pela diversidade de narrativas históricas e propostas para (re)pensar a educação e a universidade, a sociedade como ela é e a sociedade que queremos construir. O I EPD pulsou com a pluralidade da vida, com o aprendizado através de conhecimentos outros que infelizmente ainda são subalternizados pela modernidade/colonialidade. A recusa deste status que inferioriza conhecimentos diversos e a desobediência epistêmica caracteriza tentativa não apenas de agregar/incluir estes conhecimentos, mas de construir sobre, com e a partir deles. O evento se fez existente e potente pelas partilhas entre cerca de quinhentas pessoas que circularam pela Udesc nos dias do evento: apresentadores de simpósios temáticos, palestrantes, participantes da tenda de economia solidária, artivistas, organizadores, monitores e público em geral. Foram dezenas de reuniões, centenas de horas de trabalho e muita parceria para construir algo que sonhamos coletivamente e do qual temos orgulho. 

O I EPD se revelou uma significativa oportunidade para construção de conhecimento e de mudanças coletivas protagonizadas por diversas pessoas e grupos que pensam, sentem, projetam, articulam, organizam, sonham e vivem formas outras de ser e de estar no mundo. 

Esta publicação é um dos frutos da vasta quarentena que nos atinge no tempo presente e que celebra um belo encontro real de pessoas plurais num mundo pré-coronavírus. Há exatos quatro meses a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) suspendeu suas atividades presenciais no enfrentamento à COVID-19. Desde então, o AYA Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais está com as portas fechadas e com as telas conectadas. Em tempos de pandemia mundial, marcado por tantos desafios, mantivemos nossas atividades de pesquisa e de extensão garantindo o andamento dos projetos, mas também a segurança, o cuidado e o fortalecimento de nosso grupo composto de duas professoras, 9 bolsistas de graduação e 15 discentes de pós-graduação. 

Desejamos uma boa leitura, que inicia com um belo prefácio da professora Fernanda Oliveira, a quem somos gratas por fazer parte desta história junto com as pessoas que de inúmeras formas estiveram presentes no I Encontro Pós-colonial e Decolonial. Afinal, como diz sabiamente o intelectual e liderança indígena Ailton Krenak no livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, “é importante viver a experiência da nossa própria circulação pelo mundo, não como uma metáfora, mas como fricção, poder contar uns com os outros” numa relação entre pessoas que se atraem e se constroem através das diferenças. Afinal, 

nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim. (KRENAK, 2019, p. 27)

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