EFURU: A história das mulheres Igbos na literatura de Flora Nwapa

A história de África e das populações afrodescendentes no Brasil, apesar de essencial, tendo em vista a ligação histórica entre o País com o continente africano, nunca foi devidamente contemplada pelos programas curriculares vigentes no País que, por sua vez, adotam uma abordagem histórica colonial e eurocêntrica relegando às populações africanas e afrodescendentes um papel de mero espectador ou vítima passiva dos processos históricos.
O movimento negro no Brasil nunca foi indiferente à essas questões. Desde o processo que resultou na abolição da escravatura, os diversos setores desse movimento se articularam no combate ao racismo, a favor das melhorias das condições de vida, bem como a conquista de um lugar no campo educacional para homens e mulheres negros no País.
Um dos primeiros resultados dessa mobilização foi a inclusão da “pluralidade cultural” como tema transversal dentro dos Parâmetros Curriculares Nacionais, aprovados em 1996, que já evidenciava a importância da discussão da questão racial no campo pedagógico. Mas foi a implementação da Lei nº 10.639/2003 (mais tarde alterada pela Lei nº 11.645/2008 que incluiu a questão indígena), que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, com o propósito de construir uma educação antirracista, destacando a multiplicidade de culturas na construção da sociedade brasileira.
Sou professora de História nas redes públicas e privadas de ensino desde o ano de 2003. O processo de incorporar uma prática pedagógica que atendesse as determinações da lei nº 10.639/2003 foi um processo difícil tendo em vista que a minha formação acadêmica reproduzia uma metodologia de ensino eurocentrada que insistia em uma leitura estereotipada acerca de África e de suas populações.
Foi somente em 2018, quando tive a oportunidade de fazer parte do Programa em Rede de Mestrado Profissional em Ensino de História – PROFHISTÓRIA – desenvolvendo um trabalho de pesquisa sob a orientação da professora doutora Cláudia Mortari, que pude conhecer metodologias outras na construção do conhecimento histórico em sala de aula. Construção esta que, a partir de uma perspectiva desenvolvida dentro do campo dos estudos pós-coloniais e decoloniais, implica em romper com um ensino que desconsidera o protagonismo dos sujeitos e que perpetua o olhar eurocêntrico para as suas experiências históricas, em particular a dos sujeitos africanos.
Nesse processo, percebi a literatura africana como fonte de conhecimento histórico, por meio da qual podemos evidenciar como o autor ou autora relata suas experiências e vivências na construção narrativa de suas personagens. E por que não levar para a sala de aula a literatura como forma de proporcionar um outro olhar acerca de África?
Foi assim que encontrei Flora Nwapa. Uma mulher africana igbo, da atual Nigéria, primeira mulher a ser internacionalmente conhecida por sua literatura. Ao contrário de outros escritores africanos, homens, que tiveram suas obras traduzidas para a língua portuguesa, Flora permanece praticamente desconhecida do público brasileiro apesar da sua importância e pioneirismo na tradição literária feminina em África.
Esse material didático tem o propósito de possibilitar que professores, professoras e estudantes do Brasil não só conheçam a Flora mas também, por meio das histórias das personagens por ela desenvolvidas, possam em sala de aula aprender a produzir conhecimento histórico acerca do contexto da Nigéria colonial e do protagonismo das mulheres ibos por meio de uma fonte literária. Penso que essa é uma eficiente forma de produzir uma educação antirracista e compromissada com a construção de um olhar novo acerca das Áfricas, valorizando as diversidades de experiências no continente, sem hierarquizá-las.
Este material, portanto, é compreendido por mim como uma forma de contribuição na construção de um ensino de História emancipador, dentro do qual povos originários, africanos e afrodescendentes deixem de ser representados a partir do olhar do “Outro” e na condição de subalternos, mas sim como protagonistas e, acima de tudo, produtores de conhecimento sobre suas experiências históricas.

ACESSE O MATERIAL DIDÁTICO: CASSIANO, Tathiana C. S. A. EFURU: A história das mulheres Igbos na literatura de Flora Nwapa. 1 ed. Santa Catarina: Universidade do Estado de Santa Catarina.

ACESSE A DISSERTAÇÃO: CASSIANO, Tathiana C. S. A. “[…] Vai haver outra guerra, a guerra das mulheres”: o protagonismo das mulheres Igbos na escrita literária de Flora Nwapa (Nigéria 1960). 95f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de História – PROFHISTÓRIA) – Universidade do Estado de Santa Catarina. Florianópolis, 2020.

AYA LABORATÓRIO

Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais – AYA