Dandara Manoela por Saul Smith

O termo “Mbari” carrega uma profundidade simbólica e cultural. Tradicionalmente, refere-se a uma forma de expressão artística coletiva praticada pelos Igbo, na Nigéria. Era uma celebração da vida através da criação de espaços temporários de arte e que integravam esculturas, pinturas e performances para honrar a divindade da fertilidade e a comunidade.

Pensando nesse sentindo, relembro um encontro que tive com Dandara Manoela, no Ateliê da Gugie, um espaço que me levava pra essa profundidade coletiva que é o Mbari original, que funciona como um espaço de compartilhamento e resistência criativa, onde as “escrevivências” dialogam com uma herança de luta e expressão afro-diaspórica.

O Samba da Guigie aconteceu mensalmente em 2023 e foi um local bem importante pra mim. Ali, comecei a fazer um som lançando meus sets como DJ: o que me aproximou de uma outra forma da cena musical de Florianópolis.

Nas manhãs dos encontros, eu costumava chegar mais cedo pra ajudar na arrumação do espaço e acompanhar a Gugie naquele frenesi típico de pré-evento. Nervosa? Sempre! Mesmo com os ingressos já esgotados, cada detalhe exigia a mesma atenção de sempre. Os primeiros sambas eram garantidos, com Dandara ali, firme, puxando a roda e montando o som como quem faz parte dos alicerces do espaço. Quem é da casa sabe: quem tá na produção já broca cedo. E foi assim, já alimentado e pronto, que eu fui pro som com Dandara.

Entre cabos, caixas, mesa de som, e um emaranhado de extensões, teve um momento que virou história. Dandara e eu, cada um segurando uma ponta da extensão, tentando ligar tudo sem enrolar os cabos, até que – PAH! Um estouro que pareceu ecoar por todo o salão. Uma das extensões começou a pipocar, fazendo um show de luzes e fumaça própria, e nós dois paralisados, só nos olhando, com a extensão ainda queimando nas mãos.

Sim, estávamos bem… Assustados mas bem. A luz caiu, o samba começou no acústico, só nas vozes e na percussão, com uma energia crua que arrepiou a roda. Depois de uns minutos e um respiro de alívio, o som voltou, e a roda seguiu de um jeito ainda mais vibrante. Aquele foi um samba pra não esquecer – no ritmo, no improviso e na força de continuar mesmo com as faíscas no ar.

Esse tipo de improviso e adaptação não é novidade para a Dandara. Ela, com sua voz potente e presença contagiante, sabe ocupar os espaços como poucos. Seja na roda, no palco, ou no centro da cidade, Dandara deixa uma marca. Além de sua carreira solo, ela está sempre em movimento, ampliando seu alcance e conectando seu trabalho com as transformações que vem observando em Santa Catarina.

“Me vejo bastante ativa tanto no meu movimento solo, enquanto cantora e compositora… Os trabalhos que tenho feito. Os deslocamentos que eu fiz por esse território de Santa Catarina, não só em Florianópolis que é onde eu moro. Esse ano já tô completando 10 anos aqui, mas também já tive a oportunidade de fazer turnê por várias cidades e pensando também Florianópolis não só com o meu trabalho solo mas com outros projetos que eu atuo como o Cores de Aidê, tanto o blocos quanto a banda…. Eu sinto que, a longo prazo, contando esses dez anos eu tive a honra de ver essa cidade, Florianópolis, se movimentando, se moldando pra fazer caber essas novas intervenções que vem chegando, tanto as pessoas de fora quanto as pessoas que nascem aqui. Tantas pessoas pretas potentes…

Isso fica muito nítido para quem está aqui há tanto tempo. Quando a gente vê a ocupação do centro da cidade com vários blocos, que eram tão poucos… Bares, o Padê que tá surgindo, as reivindicações pelos territórios mesmo. Agora a rua Vítor Meireles ser chamado de Largo da Antônieta², e eu trago esse simbolismo em um clipe meu que eu fiz há alguns anos atrás que se chama Pretas Yaba das pessoas negras, principalmente as mulheres negras ocupando a cidade, trocando o nome das placa, reivindicando esses lugares. Eu penso que o nosso em movimento vai moldando o território, e eu sinto isso nitidamente nesse tempo que tenho em Florianópolis e também pelo percurso que eu consigo fazer em Santa Catarina…

Dandara menciona o Padê, um restaurante que carrega as raízes da culinária ancestral preta e é liderado por sua mãe, Eli do Acarajé, agora Eli do Padê. O espaço se tornou um ponto de encontro e resistência em Florianópolis, onde a cultura e a ancestralidade preta se fazem presentes. Ela também faz referência a Antonieta de Barros, a primeira mulher negra eleita para um mandato popular no Brasil, cuja memória hoje é homenageada no Largo da Antonieta, um símbolo das conquistas e da ocupação negra na cidade.

Fotografia de Bolívar Alencastro

“Vindo de São Paulo que é um lugar onde muita coisa já acontece. Eu sou de Campinas e vindo pra cá com muitos receios, vários alertas, eu fico muito feliz e muito honrada de me sentir fazendo parte de uma história que ainda tem muito desdobramentos pra se dá mas de uma Floripa cada vez mais preta, cada vez mais revolucionária.  Acredito que confio nisso e acho que a arte é uma ferramenta potente para o que vem acontecendo.”

Além de cantora, compositora e educadora vocal, Dandara também é uma entusiasta em compartilhar seus conhecimentos sobre a voz. Com um projeto que tem por objetivo conectar pessoas à música, ela tem o plano de lançar um curso online em novembro, especialmente voltado para moradores de Santa Catarina. A proposta é mais que ensinar; ela coloca as pessoas para tocar com sua banda, criando um espaço para quem quer expressar suas vozes ao lado de outros artistas. Contudo, o projeto ainda enfrenta desafios financeiros, especialmente para alcançar quem não tem condições de arcar com o custo.

“Eu tô num movimento de criação de novos trabalhos, novas músicas. Eu ainda não tenho certeza em quais formatos isso será possível. Mas tem músicas no forno… Além disso eu tenho feito um trabalho com a minha marca que é Solta a Voz e Canta junto com outras pessoas que tem esse sonho de cantar. No próximo mês vou lançar um curso para pessoas não branca, pretas, indígenas, que vai ser um curso online pra falar um pouco de técnica vocal, de criação, de soltar essa voz…

Tenho feito, há alguns anos,  todo ano, uma saída do país pra levar e representar de alguma forma Santa Catarina, numa militância de acreditar na potência preta desse lugar. Um dos planos é continuar fazendo isso nos próximos anos. Ir pra novos lugares, países que ainda não passei “

Dandara segue abrindo caminhos e deixando sua marca em Florianópolis e além, conectando pessoas e suas histórias através da música. Enquanto isso, eu também continuo vagando, fazendo desses encontros uma parte essencial da minha própria jornada. Em cada espaço que ocupamos, compartilhamos essa força, multiplicando presenças e traçando rotas para quem ainda está por vir. Esses momentos de colaboração e celebração são fundamentais para construir uma narrativa coletiva e vibrante.

Pretas Yabas

Peixe

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@dandaramanoela
@gugiecavalcanti

Autor

Saul Smith (Licenciatura em Artes Visuais – UDESC/CEART)

Artista Visual e músico, Graduando em Artes Visuais Licenciatura pela UDESC e integrante do AYA – Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais sendo bolsista do Programa de Extensão Movimentos Decoloniais: Práticas, Diálogos e o Sentipensar, atuando no Circuito de Exposições poéticas da relação. Utiliza linguagens como gravura, pintura e fotografia em sua pesquisa sobre os territórios de afeto através da rememoração de símbolos da infância.

AYA LABORATÓRIO

Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais – AYA