“Eu falo que é quase um apartheid, não na mesma proporção, mas são lugares bem marcados de música preta e os espaços que a gente ocupa.”
Eu curso licenciatura em Artes Visuais na UDESC: é o mesmo curso que a Isadora, minha companheira, se formou. Na ocasião da sua formatura, ela me pediu para eu editar uma música que ela gostaria de ouvir quando fosse pegar o seu canudo.
“Eu vim ao mundo pra levantar poeira!” Era Elô Gonzaga marcando aquele momento especial. Bonito de se ver, uma pessoa preta se formando contraria tantas estatísticas.
Nesta semana, a Soberana Ziza (SP) esteve pela Udesc, ministrando oficina e pintando um mural, em grande estilo, homenageando Dandara Manoela, Valda Costa e Elô Gonzaga. Por algum motivo não esperava que encontraria Elô por ali. Eu já tinha enviado uma mensagem pra ela, no dia anterior, falando sobre a possibilidade de fazer esse texto com ela. Acho que até agora ela ainda não viu essa mensagem, mas o importante é que o registro foi feito e o encontro se deu.
Oi Elô! Eu queria te fazer umas perguntas… Na verdade, te mandei mensagem esses dias…
“Você também acabou de ser pai.” Disse ela pra minha surpresa com a pequena Nayla nos braços. – “Me desculpe. realmente não vi sua mensagem… Mas eu vou dá de mamá pra ela, ali na cantina, e a gente pode conversar. Eu acompanho vocês pelo Instagram…“
Pensei: que legal! A gente tá ligado de alguma forma, mesmo que seja por nossas bolhas das redes sociais.
Elô Gonzaga é sambista e manezinha, de Florianópolis, com uma trajetória musical que remonta às raízes do Cacumbi em sua família. Mestre em Educação Musical, educadora e intérprete, Elô desenvolveu sua musicalidade no grupo “Novos Bambas” e segue em carreira solo, destacando o samba como expressão de ancestralidade e afeto. Já dividiu o palco com grandes nomes do samba, como Dona Ivone Lara e Nei Lopes. Colabora com músicos catarinenses, incluindo Celinho da Copa Lord, uma referência local.
“Agora estou dedicada à maternidade, mas também já estou pensando coisas (processo criativo do artista não para)… Tem um projeto que eu vou lançar, uma música que eu gravei quase ganhando a Nayla já. É um projeto do Café do .Largo da Alfândega. Ali tem samba todo sábado e eu sou uma das cantoras que cantam ali, e eles vão fazer um álbum com músicas autorais, dos músicos, para ser lançado dia 7 de dezembro. Essa música eu fiz com Wagner Kchaça, meu companheiro, e é essa que vai ser lançada neste projeto.”
Peço pra Elô falar da sua circulação na cidade, sobre o que é tocar nessa cidade: algo que pode ser bem hostil em alguns aspectos.
“Eu digo que tem lugares marcados aqui em Floripa… Lugares bem marcados… Eu falo que é quase um apartheid, não na mesma proporção, mas são lugares bem marcados de música preta e os espaços que a gente ocupa. Apesar de eu ter tocado em vários lugares totalmente brancos: brancos não só no fenótipo mas também no jeito de ser… Mas assim… Eu sinto falta dum samba que eu aprendi, que era aquele samba familiar onde as famílias se encontravam para fazer samba, eu sinto falta disso hoje. A minha relação acaba sendo mais profissional hoje em dia, mais comercial. Eu até me divirto, mas acho os lugares bem marcados. A gente sabe onde tem música preta, e não é toda pessoa que chega na cidade que enxerga isso de cara, acho que ela tem que ser apresentada a esses lugares de música preta, porque quando você chega na cidade é uma cidade branca.”
Foi uma conversa bem breve com Elô, não quis ocupar muito seu tempo de cuidado com a cria. Mas fiquei imensamente emocionado com esse encontro casual.
Spotify
Referências
https://ndmais.com.br/musica/sc-no-ar-recebe-a-sambista-e-manezinha-da-ilha-elo-gonzaga/
@dandaramanoela
@soberanaziza
@elogonzagaoficial
@jerusamaryfotografia
Autoria

Saul Smith (Licenciatura em Artes Visuais – UDESC/CEART)
Artista Visual e músico, Graduando em Artes Visuais Licenciatura pela UDESC e integrante do AYA – Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais sendo bolsista do Programa de Extensão Movimentos Decoloniais: Práticas, Diálogos e o Sentipensar, atuando no Circuito de Exposições poéticas da relação. Utiliza linguagens como gravura, pintura e fotografia em sua pesquisa sobre os territórios de afeto através da rememoração de símbolos da infância.




