Natan Severino: A arte em Floripa e a repetição das estruturas de poder por Saul Smith

“Tem muita problemática relacional sobre a arte em Floripa, e os curadores, eles são uma representação de como a nossa sociedade é organizada.”

“Primeiramente, eu sou um artista do teatro e da música que vem há pouco tempo tendo uma visibilidade um pouquinho maior por conta do meu trabalho e do meu pensamento sobre as relações pretas e a manifestação preta e artística na cidade de Florianópolis, e eu acho que nesse ponto eu sou atravessado desde novo sobre essa percepção de me entender na cidade enquanto ser humano, desde criança nas escolas de samba ouvindo a batucada, tendo o corpo preto como protagonista de narrativas. Eu sempre me deparei com esse pensamento crítico que o samba sempre me trouxe, de pensar as culturas pretas, e era o samba, sempre o samba, a partir de Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, muitos sambas exaltação… Sempre me senti muito próximo porque eu me via representado nessas músicas, e o meu pensar artístico, principalmente ali desde o início da faculdade de teatro, eu fui atravessado por isso, porque eu já tinha ali o Natan indivíduo. Aí, pensando tudo que rolou, todas as experiências ali dentro da universidade, elas sempre caminharam com o corpo preto, o meu corpo, como protagonista, e com isso eu fui percebendo o quanto a cidade de Florianópolis é caótica, ela se assemelha a outras capitais onde o corpo preto é segregado, ele tem essa relação, essa idealização de subserviência, o corpo preto sempre tá ali pra servir. Então isso sempre atravessou meu pensar artístico.

Dentro disso eu me deparo junto dos coletivos pensando esse lugar do corpo preto em Floripa…”

“Historicamente, aqui na cidade de Florianópolis, ela foi construída muito pelas mãos pretas. Ali na avenida Hercílio Luz era a moradia das pessoas pretas que foram empurradas pra lá e depois pro Maciço do Morro da Cruz, assim esse panorama atravessa muito o modo como as pessoas pretas lidam com a sociedade. Antes de falar de produção e da relação de poder com as pessoas que decidem que tipo de arte e quem vai ocupar esses espaços, tem uma relação que cai sempre no dinheiro, e pensando a cidade de Floripa, sendo esse lugar com um dos metros quadrados mais caros do Brasil, vai cair nessa relação com os centros culturais aqui na cidade, com o estudo e a dominação das pessoas brancas em espaços que valorizam as pessoas pretas. De uma certa forma tem essa apropriação mesmo, se apropriam da narrativa preta, conseguem se aproveitar a partir da cultura negra musical para pegar essa riqueza cultural, musical, sonora de tantas manifestações pretas que a gente tem, se apropriam disso para lucrar. Então, da mesma forma como elas conseguem alugar e construir um espaço a partir do dinheiro, eu não consigo visualizar uma pessoa preta construindo um espaço que consiga se sustentar e se estruturar, porque tudo parte do dinheiro, é o dinheiro que possibilita às pessoas brancas com seus privilégios ter esse poder de decisão, que eu trago aqui na questão da curadoria de eventos que estão dominados pelas pessoas brancas em Floripa.”

Sobre esse texto, dá pra dizer que já vem na cola do anterior. Aproveito pra continuar essa pesquisa aqui pelo Samba da Búia mesmo. E assim já pego o Natan, que tem essa voz aveludada, cheia de sentimento, e é mais um novo talento do samba catarinense. Poderia até chamá-lo de multiartista, por ele ser professor de dança, atuar no Poeira Grupo de Teatro e ser um músico de talento… Mas, pelas minhas idas e vindas, é bem difícil encontrar um artista preto que não seja multi.

“Ao longo desses anos eu tenho trabalhado tanto com teatro quanto com música né, e a gente depara também com muitas problemáticas relacionadas a condições de trabalho. Às vezes a gente não consegue ter boas condições de trabalho e uma boa remuneração, sabe. Às vezes a gente passa por algumas situações meio insalubres, eu acho que até mais com o teatro.

Eu venho fazendo um movimento muito legal com o Poeira Grupo de Teatro, mas  também já passamos por algumas situações que são cansativas, tanto financeiras quanto de logística, assim, de um carro cheio de gente, cheio de material… E a gente faz isso porque a gente sente que é importante para o nosso momento, tá começando e tudo o mais… 

Tem essa relação também que eu acho que ela é complicada, que a gente recebe pouco, às vezes trabalha bastante e recebe pouco, né. A gente tem que trabalhar três, quatro vezes para receber um valor ali que vale a pena ficar, se aventurar nas loucuras.”

Trazer Natan aqui para o Mbari não é tão ocasional assim quanto parece (só por ele estar ali na Búia também). Pouco antes do Carnaval, o artista lançou “Nas alturas”, música que enaltece a resistência nos morros de Florianópolis; o som é uma pedrada e conta com a participação de vários nomes do samba da cidade, entre eles o parceiro Gabriel Rosa.

Ultimamente tenho passado mais tempo em casa, amando o pequeno Sol de Ayô (meu filho, agora com seis meses), tenho saído pouco e trombado cada vez menos com a galera nas rodas. Isso só pra justificar esse nosso papo, que foi todo por mensagem de áudio, e também citar Sol de Ayô nessa resenha.

Ainda abalado pelo Carnaval e a Maratona Cultural de Florianópolis, minha curiosidade persiste em saber o que de fato é pensado sobre essa cadeia de produção e a curadoria musical nesse atual momento. Natan continua:

“Basicamente, meu pensamento sobre os produtores desses lugares é isso, né? Acho que ele cai numa repetição ou numa representação de como a sociedade é: se a sociedade tem as pessoas brancas no lugar de poder, a classe artística vai cair no mesmo lugar. É a mesma estrutura se repetindo: por mais que eu venha trabalhando bem – bem é complicado de dizer –, a arte ainda não paga minhas contas. Eu preciso me desdobrar em outras coisas, mas, por mais que eu venha desempenhando esse trabalho artístico, tem muita problemática relacional sobre a arte em Floripa, e os curadores, eles são uma representação de como a nossa sociedade é organizada. Pelo menos eu penso muito por aí. Então é a dominação das pessoas brancas na classe artística também.”

Spotify

IG @natan.seve

Referência

https://ndmais.com.br/musica/cantor-da-dascuia-lanca-nas-alturas-que-canta-os-morros-de-florianopolis/

https://noticias.r7.com/santa-catarina/nd-mais/a-dias-do-carnaval-cantor-da-dascuia-lanca-nas-alturas-que-canta-os-morros-de-florianopolis-12022025/